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27 de abril de 2022

Mudo

Tenho medo

Do céu que se fecha

Do Sol e seu feixe

E que a luz revele

E eu me desvale


Que o ramo sem amor

Deixe nú meu vale

E que não valha o andor

Não resvale minha dor

Que seja verde minha cor

E resguarde meu rancor


Uma palavra punhal

Ainda que roxa de tônus

E vontade animal

Me deixa só o ônus

Das águas zodiacais

Das datas sazonais

Dos ventos cardiais


Verte vontade

Falta norte

Verte choro

Ver-te ao sul

Dá saudade azul

Que engulo em coro

De um leste a oeste nulo

E eu no centro

Disfarço rosa

Disfaço prosa

Do ensimesmado

Mudo

Aprisionado

Surdo

Desmaiado


Natimorto destino

Que sem rumo, sem sino

Desagua em foz mínimo

Sem ronronar felino

Sem fim, ínfimo

Sem chance, Sísifo

4 de março de 2022

Areia

Tal certeza do mar tornar a areia
Riscar de tinta o que era giz
Ser seu sonho em lua cheia
Seu cadeado na ponte em Paris

O som que te faz sereia
Sua chamada em outro país
O fogo da luz de candeia
Ser mais do que você sempre quis

Ser seu número de emergência
O beijo na sua nuca
O positivismo da sua ciência
Sua razão mais maluca

Por fim a toda incipiência
Sendo seu primeiro bom dia
Fechar a porta da ambivalência
E te levar pro samba de Lia

Nos músculos cansados
Contorcer de prazer e dor
Ser o abraço molhado
Fenecer do mesmo calor

De veneno antimonotonia
Verter o suor na coluna
Ser o riso do sol que irradia
O dente na tatuagem de runa

E nesse lirismo desnorteado
Preencher o acaso com cor
Em seus beijos encharcados
Passear nas horas do amor












18 de dezembro de 2021

Insuficiente

Em tudo
Me cobram
E cobrem
De vigor
Ante ódio
Rigor
Vida rígida
Libido frígida
Nada é mais
Pouco capaz
Insuficiente
Demais
Tento
Conquanto
Lamento
Enquanto
No espelho
Me desinvento
Falo é pouco
Falo demais
Nada satisfaz
Quero assaz
Ninguém traz
Por trás
Se esvai
Alguém fica?
Ninguém cai
Nada estica
Tudo vai
Eu escuro
Penumbra
Me curo
Vislumbra
O céu
O meu
O fel
O seu
O fim
De mim
De nós
Sempre
Sós

7 de outubro de 2010

Seco

Se de tantos mântras
Sobrou-me a veia rasgada
Haveria eu de ver o espírito
Que bebia em mim

Se o álcool que eu sangrava
Permanecia estancado na taça
Para que eu me preocuparia
Com meus poros inundados

Porque se para cada vez
Que eu não me permitisse secar
Bastasse que sobrando fôlego
Eu mergulhasse em brasa

26 de setembro de 2010

O Que Querer

É como encarar a tela e dizer o que mais sufoca seu pensar e assumir ao espectador essa verdade Bergman da vida.
Tira o xadrez da estante e jogo os seus dados para o destino propor novamente a mais longa das noites não dormidas,  em prol de mais uma saudade que não apazigua.
E quando pinto todas as cenas que foram e seriam na exceção daquilo que vendi a mim mesmo como proteção, perco toda a esperança de crer naquilo que esqueci de confiar.
Nem meu discurso pronto e refeito me acalma, mesmo em meio ao mesmo caminho que acho que percorri em algum dia chuvoso. Da sensação da água não me lembro, só da lama. Lava, minha memória, minha vida, minha língua, meu dia.
Essa minha memória suja anseia que se for pra ser, que seja tudo então.  Este é o problema. Depois de tudo ainda querer tudo.
Afinal, não quero soltar para esperar voltar, quero agarrar as chances que eu tenho de me lançar ao vento da janela do carro e toda a alegria contida em si.
Eu acho que sei, enfim, o que querer. Mas é assim, de novo e de repente: quem me quer bem? Será que é quem eu queria? Será que me quererá? Que me quer?
Bem eu quero quem me quer. Disso sei.